quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

End(vidar-se)


End(vidar-se)

Devaneios.
Deva meios...
Princípios e fins.
Quitá-los pela aflição de um norte
aceitando a instantaneidade do atalho
num abrupto corte,
seria um adiantamento
À outra aflição precoce.
End(vidar-se)
de instantes,tragédias e risos.
Dúvidas, calafrios e erros.
Encher a alma e os dias
De inesperados caminhos.

Perceber,
o valor da caminhada
sentindo o chão
através do furo no sapato
que o tempo moldou.
Que a lágrima nunca mais
desabe veloz rumo ao solo,
mas deslize suave
entre os profundos sulcos,
(essa mágica materialização
de acúmulos de momentos),
desaparecendo tranqüilamente pelos poros.
A mesma tranqüilidade necessária
Presente em cada passo
percorrendo a linha do tempo.

*end:fim em inglês
*(vidar-se) gramaticalmente incorreto. Peguei o substantivo feminino "vida"e o transformei em um verbo: "vidar-se" que é encher-se de vida. A norma culta que me perdoe, mas a licença poética me fornece essas armas. Assim consegui dar complemento ao "end" para ficar foneticamente igual ao "endividar-se" correto. É um paradoxo, pois une fim e encher-se de vida. Era justamente isso que eu queria mostrar. Pra quê encher-se de coisas e objetos, se a vida é composta em sua maioria de coisas abstratas e tem entre elas, o tempo como definidor de "substância"ou ausência da mesma na essência do viver.

ninil-2007

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Epitáfio mediocre


"Aqui jaz um homem que morreu de saco cheio"
Cláudio Colello não poderia dizer que teve uma vida ruim: deixou quatro filhos encaminhados, seis netos, uma mulher que o admirava, uma empresa bem-sucedida no ramo de auto-adesivos e uma casa de praia em Peruíbe. O velório foi prestigiado por mais de 500 pessoas.O típico homem realizado teve cumprido até o seu desejo final, realizado por um empreiteiro de túmulos intrigado e surpreso, ao custo de cerca de R$ 100. Colello quis, forjado em bronze, o epitáfio mais bem-humorado do cemitério: "Aqui jaz um homem que morreu de saco cheio".O que encheu o saco de Colello não foi nada de extraordinário, mas aquelas irritações cotidianas: "Teve um funcionário dele que precisou de uma ajuda financeira para poder morar. Aí, meu marido foi fiador e, no final, teve de pagar o aluguel". Conta Vilma. "Por isso é que ele encheu o saco".Segundo Máximo, o empreiteiro, placas de bronze duram para sempre "Se não forem roubadas, né?" - Ressalva: “O túmulo Colello já foi atacado. Levaram a cruz”.
-folha de São Paulo 02 de Novembro 2007-

* Ao ler esta notícia na folha de São Paulo fiquei pasmo,não pelo epitáfio ridículo que este homem "mandou" escrever em sua lápide,mas pelo olhar mediocre que se pode ter sobre as coisas quando esse olhar é totalmente comandado pela ótica do materialismo absoluto.Além dos bens materiais,nada tem sentido ou possui qualquer outro tipo de valor para esses olhos de "caixa registradora",o mundo se resume à contagem de cédulas e ao acúmulo das mesmas.
Uma semana antes de ler esta notícia,eu havia assistido o filme "Nós que aqui estamos,por vós que esperamos" de Marcelo Masagão, baseado no livro "A era dos extremos" de Eric Hobsbauwm.No filme são mostradas imagens do século 20,em que todas as pessoas já estão mortas.As imagens em sua maioria são tristes,terríveis,quase sufocantes.Mas são imagens reais,onde o que imperou foi a violência, a guerra,a fome,o preconceito,o fanatismo,o egoísmo,a tecnologia substituindo o homem...O filme é muito bom,além de ter uma trilha sonora absurdamente linda de Win Mertens.O diretor deixa bem claro no início e no final do filme porque que aqui estamos e o que nos espera,mostrando a entrada do cemitério.Isso é completamente existencialista,ao invés de sermos caixas registradoras,sejamos um "corpo" acumulador de coisas boas,que possuam valores que não possam ser medidos pelo poder do dinheiro.
Samuel Beckett disse que "a morte é a única verdade da existência humana".Também há o dito popular:"Existe remédio pra tudo,menos para a morte."Então vamos nos encher desse elixir maravilhoso que é a própria vida e que venham os problemas corriqueiros,pois para eles,temos remédios.
-Ninil-





Saco cheio de nada


Corre-se, se lhe apraz.
Não se corre,
se isso te satisfaz.
Caminha-se por caminhar
ou
algumas coisas te levam...
a caminhar.
Deixar o corriqueiro afogar os passos

Num infinito pântano de ninharias,
é não valorizá-lo como fragmento
necessário de um todo.

Morre-se sempre.
Morre-se triste, abruptamente,
calmo ou até de saco cheio,
tanto pior se estiver cheio...
de dinheiro,
pois em nada irá amparar
a alma cheia do nada,
acostumada a contabilizar
o todo como valor único,
tendo o corriqueiro
como mero fragmento dispensável.
Também a morte o leva por inteiro,
deixando para trás
olhares, estalar de dedos, respirações
amores,gestos, risos , sussuros
e tudo mais que compõe
esse todo do corpo.

Quem será o fiador dessa alma,
que acumulou tudo
e não traz coisa alguma?

Morre-se todos os dias,
assim como todo dia o dia morre
para que outro nasça,
assim como cada passo se finda,
para que o outro passo
anuncie sua vinda.

-


Ninil-2007

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Razão de abstrair-me




Quase uma abstração.
Rodopiando rente ao solo
preso à um mínimo fio de razão
o vôo que não pôde alçar,
levantou aos céus... o chão
sacudiu o lençol dos dias,
espalhando pelo ar vazio e rarefeito
um insistente estar.
Instaurando no nada
um ponto
Onde eu possa me abrigar.
Envolto em uma sinfonia de fragmentos
o ser dissolve-se e se mistura,
encontrando-se... ao perder-se
no infinito alimento do pensar,
engolindo lentamente os dias
mastigando cada segundo
sem um mínimo de aflição,
digerindo o tempo com a calma
daquele que reconhece o valor do pão.
Abstraio-me na vastidão do pensamento,
pairando tranqüilo na amplidão.
Insuflando o peito de loucura
arrotando a mais pura razão.
Ninil-2007
foto-Luzinete Araújo

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Tê-la inteira na tela

.
Planejava instantes eternos entre nós,
mas o vento que te trouxe
caminhante sorridente
te levou
rápido e gargalhante,
dissolvendo as cores
que não cheguei a pintar.
As retinas estão vagas, incompletas,
imersas no branco eterno da tela.
Rasgarei –a,
pintarei apenas os fios retorcidos do corte,
eternizando a cicatriz,
a maior entre as muitas.
Irei Colocá-la num canto,
onde meu olhar constantemente
insiste em perder-se.
Contemplarei os sonhos adormecidos
impossibilitados de erguerem-se,
ante a tinta que secou impaciente
entre os fios do pincel,
antes de pousar o branco infinito
que suplicava por cores.

Ninil Gonçalves-94

Semente

foto:Ninil


Tenra semente
onde a vida
-teoricamente-
repousa latente.
Deitando-se ao solo,
sente um abraço
telúrico, úmido e quente
despertando-lhe a vida
entre inaudíveis gemidos
e sêmens ausentes.
Ninil Gonçalves-2003

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Metrópole

Quando fiz esta foto, imaginei uma metrópole surgindo de um tronco. Hoje percebo que essa metáfora tornou-se mais forte quando analisada de um ponto de vista do crescimento desenfreado das cidades, onde as barreiras naturais que impedem esse crescimento são rapidamente destruídas em prol de um mundo onde tudo caminha para o "comércio absoluto", aliás, tudo no mundo se desenvolve tendo como única finalidade o lucro financeiro, não importando quais resultados negativos irão gerar essa incontrolável e insaciável fome por dinheiro. O lucro tornou-se a verdadeira religião do homem. No centro do tronco os "arranha-céus" mostram-se absolutos, diante de uma periferia pulverizada pelo poder central.
"Metrópole" foto:Ninil Gonçalves

Comentário

Infeliz da nossa sociedade que vive num completo processo de degradação dos verdadeiros valores. Nossa época poderia se chamar a "Era da Conciência Inútil" isto porque estamos todos cansados de saber e sermos lembrados a todos instantes sobre o que fazer pelo planeta, pelas pessoas. Somos concientes que não devemos poluir, que estamos matando nosso Planeta que ainda há tempo, pouco tempo para salvá-lo, porém, necessitamos poluir, desmatar, destruir, para mostrar que somos evoluídos. Hoje título de nobreza é um carrão com um super motor que emite muito monóxido de carbono, é termos aquele maravilhoso perfume contracenando com o odor de todo o lixo que criamos, mesmo que para isso seja necessário extinguir todas as árvores Pau-rosa da Amazônia, isso porque a infeliz produz um excelente fixador de perfume, usado por marcas cobiçadas como a Chanel 5. E tudo isso para?... para sermos como os outros, seguindo a tendência da moda ditada pelas personagens Globais. Devemos seguir!... E enquanto isso, como anda nossa relação humana?... teremos salvação?....

Roberto

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

fotografia

"suave resistência"-foto:Ninil Gonçalves



fotografia


O instante submetido
à eternidade do agora.
O disparo,
estagnando o tempo
dentro da composição,
enquadrando o espaço
onde o ser inaugura
seu mundo.
Capturando
matéria e alma,
poesia e imagem,
concretizadas
na infinitude do instante
que se esvaiu.


Ninil Gonçalves 2007

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Roub-ar

Confesso desde já:
Continuo a roubar.
Dormindo, acordado
correndo, andando,
rindo, chorando, gozando
com raiva e até parado,
continuo a roubar.
Não que eu queira,
está além de mim
não existe um freiar.
Até tentei certo dia,
cerrei os dentes
tapei os olhos,
tranquei as narinas...
Um pouco até deu pra suportar,
mas o peito aflito
reclamou o vazio ,
sacudiu-me impetuoso
e o corpo todo respondeu
em fremente despertar.
Não adianta , não consigo parar!
Essas pobres árvores
continuarão sendo vítimas
desse meu anseio de viver
e da necessidade de furtar
o mais nobre alimento existente,
que moeda alguma consegue taxar.
Então, livre da vontade de parar,
visto minha alma e saio à rua
lentamente à respirar.
O peito infla-se ao máximo,
ladrão de vida,
solto no ar.

Ninil Gonçalves-2008

Amar a música

Aldous Huxley disse que "depois do silêncio,o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música".
Nietzsche declarou que "sem a música,nascermos já seria um erro".

Música

-
Não existe

no que se declara

como sendo corpo.

Adapta-se ao espaço...

que lhe cabe,

rompe qualquer atitude

de mínimo aprisionamento.

Repousa serena e enlouquecida

na invisibilidade do nada,

estruturando-se em quase tudo.


Eterna e plena

na temporalidade mínima

de cada nota.


O vibrar da corda,

s u s p e n s a

entre a mão e o instrumento.

Suave lâmina rompendo

o silêncio infinito.

Inimagináveis cores

tecidas suavemente

em incontroláveis tons.

Inclassificável abstração,

orquestrando no peito

a mais pura razão...

Razão de amá-la.


Ninil Gonçalves 2007

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Atestado de p(n)obreza

Hoje vi alguém no metrô, com um livro aberto em determinada página que tinha um subtítulo que dizia: "como este livro pode te ajudar a se livrar da pobreza" . Algumas pessoas odeiam ser pobres, não pelo fato disso as privar de algumas coisas necessárias, mas pelo fato de que elas não podem ter a mesma mansão do figurão da revista "caras" ou aquele automóvel que te dá notoriedade para transitar entre os "importantes" e se sentir como eles. A sociedade consumista criou meios que determinam como proceder e o que adquirir para que se possa fazer parte dela e a forma como isso é cobrado é terrível e torna-se uma briga constante consigo mesmo e com os outros (sem falar dos mecanismos de uma vida prática, que são itens obrigatórios do homem moderno). A pessoa não enjoa do carro novo que ela comprou no ano passado, ela precisa mostrar aos outros, que ela pode ter um melhor do que o do vizinho ou do colega de trabalho. Isso se torna uma bola de neve até que a pessoa não consegue mais saber quais são realmente os valores que formam um ser humano. Os valores são regidos pelo mercado de consumo. Espiritualidade é ir à missa ou ao culto no domingo com sua roupa de grife e valores são aqueles aplicados na bolsa.
Estive num bairro "nobre" de São Paulo para fazer uma visita à alguém que estava muito doente numa clínica. Fiquei abismado com aqueles muros altíssimos e portões enormes e nas ruas não se via viva alma, parecia um cemitério. As pessoas estavam nos carros caríssimos ou trancadas com suas tvs de muitas polegadas e cheias de muitos canais pagos assistindo a mesma novela das oito que as pessoas de São Miguel Paulista assistem, mas em São Miguel, as pessoas soltam pipas e foda-se o carro que vem vindo, as mulheres colocam cadeiras nas calçadas e riem "a plenos pulmões", um riso que estilhaça o ar. Meninas "ainda" brincam de amarelinha e como não podia faltar, alguns garotos imploram à dona Maria que devolva a bola que caiu no quintal. Eu não anseio ficar rico porra nenhuma, nem quero uma merda de carro que todo mundo babe em cima.
Estou respirando e isso já é um grande lucro e junto com a respiração vem um tanto de coisa boa (se quisermos é claro).

domingo, 13 de janeiro de 2008

inquietação

Da superfície da pele
à cavidade
mais obscura dos ossos,
sinto novamente sacudindo-me
por inteiro
a antiga inquietação.
Adormecida na recusa em acreditar
que do ato
-mesmo erguido do nada-
surgirá silenciosa e paciente
a estrutura do viver,
onde cada fragmento
ousa representar o signo do todo.
Até não muito antes do agora que se mostra,
apenas um mero esboço de atitude
surgia...ofegante,quase imperceptível
dentro de cada fragmento,
onde o marasmo se oferecia
com freqüência como leito
e o torpor arrastava as horas
no mais lânguido caminhar.

O sol que iluminava os passos
flutuantes na displicência,
se desbotou veemente
sob o estrondoso e indiferente calçado.
Até o vento,exímio coreógrafo
abandonou o balé das flores,
arrastando-se pesado,
varrendo o frio concreto
das calçadas vazias,
Desaparecendo ligeiro pelas esquinas.
Hoje,
aquele ruidoso vento
sopra cuidadoso
desprendendo com cuidado,
uma a uma
cada aveludada pétala,
oferecendo-as tranqüilo
aos passantes apressados.
Mesmo a recusa e a indiferença
me contemplam
com instantes de aprendizado.

Irei Vestir os meus dias
de horizontes menos opacos,
pois minhas roupas
estão desbotadas e cinzas.
Não me cabem como antes,
mas não as abandonarei
num canto sombrio e esquecido
como referência à algo distante,
tampouco as tingirei
com cores alegres e brilhantes.
Remendá-las às novas me apraz,
já que o tempo
esse senhor da costura
no passado nos refaz,
alinhavando a exatidão
num ponto desigual.

A antiga inquietação está de volta.
A velha melodia se une a outras
novas e urgentes.
Já que o futuro é uma sombra inatingível,
calço meu passado
e dou-me estes momentos
como presente.


Ninil Gonçalves- 2007

Início

Oi pessoal, estou iniciando hoje o meu blog. Como sinto uma necessidade incontrolável de escrever, não como uma válvula de escape, mas como um modo de poder entender e interpretar as coisas que me cercam. Não esperem grandes coisas, pois ainda estou engatinhando sobre a escrita, também não tenho ilusões quanto à escrever ago realmente "interessante", mas a necessidade de escrever é realmente incontrolável, pois se não temos voz ante o turbilhão de coisas ruins que desmoronam sobre nós, podemos espalhar por aí nossa indignação através destas ferramentas modernas e não apenas usá-las para bate-papos idiotas.
ninil-zé