segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Ler Manoel






Ler Manoel
                                    
                                                    A Manoel de Barros

Leitura que se faz como fósforo aceso
beijando a gente
grama crescendo no peito orvalhado
da cinza do dia
Espesso instante que se agiganta além
gritado em mínimo verbo
Ler Manoel precisa de manual de barro
que se desmancha
sob a chuva, sob a displicência do pisão
ensinando sabências
de quase nada que interessa nesse mundo
de barro grudado no ar

                                                Ninil Gonçalves


                                                 
  Desenho: Manoel de Barros

sábado, 21 de janeiro de 2017

Espera





Espera

És manhã, tarde e noite.
Veste-me
com todas as cores do seu tempo.
Eu te aguardo
ansioso, ausente e colorido
no meio do dia cinza.

                                          Ninil G.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Disrupção





Disrupção

Este músculo oco, cansado e insistente
retém em camadas subsequentes
cada instante ampliado em batidas
em ecos sutis sacudindo a epiderme,
espalhados pela caixa de ressonância
repercutindo o fremir em cada célula.
Este coração que recusa o silêncio
foi arrancado da terra num ímpeto
abandonado à solicitude do solo
tomado ao evanescente ritmo do tempo.

Restabelecido no ritmo pleno da duração
um novo gesto refazendo o devir renovado
desvendando essa docilidade vermelha
mesmo no suave deslizar da lâmina diária.
Carne pulsante aconchegada na palma da mão
medo, dúvida, poder, aflição, ansiedade
tudo vazando solenemente entre os dedos.
Batimento renovado em ritmo alheio
(des) fazendo-se em uníssona harmonia
até que surja furioso e inesperadamente
o silencioso e derradeiro corte.

                                                   Ninil Gonçalves




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sebastião






Sebastião

                                          A Sebastião Salgado 



Ossos espalhados pelo chão
brinquedos possíveis
de uma verdade circundante
expondo a fratura dos dias.
Olhar de Sebastião tão doce
sobre o amargo que se derrama
na ausência de cores
na insistência das dores e horrores
na rudeza da ruga que se refaz
em beleza na lambida da luz
no dorido desbotado que se amplia na retina
dos olhos abertos da criança sem vida.
Explora a dor dos outros?
Acusação vociferada dos olhos fechados
ante aos que gritam sua dor diariamente
ofuscados pela luz que cega
o olhar limitado em si mesmo.
Sebastião,
olhar que não se basta de tão outros
desvendando assim como no nome
o sagrado de cada pedaço de vida
que se junta a cada lugar desabitado
a cada trabalho que se desdobra das mãos
a cada novo êxodo sofrido pelo corpo
na gênese reconstruída pela luz
no diálogo com o perfume das formas.

                                       Ninil Gonçalves


Foto: Sebastião Salgado (Terra)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Aula






Aula

                                                       À Ana Maria Haddad Baptista

O tempo redescobria-se entre as palavras
dispostas em formato único de decifração
daquilo que não pede para ser medido,
mas submete-se à mediação do pensar,
concretizando-se em tocável verdade.
Lousa infinita sorvendo vivos instantes,
transportados de espectros atemporais
à melodia rabiscada e revivida em pó.
Passos transitam o léxico em suave dança
alcançando a memória no exato momento
que cumpre o bailado impreciso do ser,
guiando  na precisão orquestrada do verbo
o olhar diluindo-se no esparramar contínuo
dessa amplidão vestida de pensamento.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Liquidoficando (2011)



Liquidoficando

                                                                                                  a Zygmunt Bauman


Estou liquidado?
Creio que não!
Não no estado em que me encontro.
Apesar de tudo vazar-me incessantemente
desconstruindo o quase feito
o quase sólido, o quase algo.
A solidez programada decompõe-se
diluída numa estrutura erguida
sob a facilidade do efêmero
enquanto contínuo provedor
de necessidades cruciais,
crucificando a dificuldade
congelando o pensar.
Estou liquidado?
Não!
Estou mineralizando a sujeira
dissolvida em líquidos dias.

                                                 Ninil Gonçalves    




Meia-boca inteira






Meia-boca inteira

Embora o que ofereço é coisalguma
ou quase nada que não pague nem valha
o tempo afugentado por fastidiosa aventura,
ouso dizer que minha meia-boca
sorve em insaciável desmedida a inteireza
daquilo que a vida oferece parcamente,
degustando em ressignificação contínua
meiaboquíssimamente
o destituído de mínima valoração
ante a assoberbada avidez insípida da bocarra
que sequer saboreia uma fração da totalidade. 

                                          Ninil Gonçalves

domingo, 8 de janeiro de 2017

Cristina nos Olhos




Cristina nos Olhos

Lâmina negra desenrolando-se
rasgando o verde silencioso
afunilando o rumo certeiro
entre falantes memórias soltas
gritando passado em sussurros
de nítida atemporalidade verbal
destituindo da velocidade do olhos
o apreendido no raso da retina
restituindo o que se enroscou
no abismo profundo do olhar
espiralado ao primitivo instante
deitando-se em lembranças diárias
do ruidoso afago das esquinas
do insistente murmúrio das águas
na noite que nunca termina
no dia que nunca tem fim
na vida que anda a passos calmos
nos instantes que nunca se perderam
recuperados nos delicados acordes
que brotam entre pedras, gramas,
tijolos...
em cada passo que se perde
onde sempre me acharei.


                                            Ninil Gonçalves

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Sussurro




Sussurro

Alguma coisa dita
assim
ao pé do ouvido
traz
inteligível sussurro
entoando
a porção suficiente
daquilo
que grita no peito
surdinando
o alarido do corpo

                          Ninil Gonçalves

Releitura





Releitura

A mesma posição sempre
O caminho a percorrer inalterado
O bip do microondas  anunciando o jantar
A angústia manipulando atitudes
O despertador sacudindo o quarto
O sapato gastando-se pelas mesmas avenidas
As vinte e cinco mastigadas costumeiras
A mesma reza antecipando o sono
O sono prenunciando outro número no calendário
O peito vazio igual a ontem
O mesmo caminhar com o cachorro...O quê?
-Nunca empacaste desta maneira!
-Nunca latiu desta forma pra mim!

O instinto subvertendo regras

As posições improvisando temas
O caminho desenvolvendo-se a cada passo
O leite derramou no fogão
A angústia equilibrando atitudes
O sol derrubando as paredes
O chinelo arrebentou em alguma esquina
O sanduíche sendo dividido
O sono veio no meio da meditação
Os dias paridos na renovação do sono
O peito vazando novidades e incertezas
As patas perdendo-se pelas ruas...Quantas!
Nunca correste tanto como agora!
Nunca latiu tão euforicamente.  Nunca!

                                         Ninil Gonçalves

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Mecânica







Mecânica

Seria a lágrima
o combustível dos sonhos
vazando do tanque do peito
entupindo as velas do pensar
soluçando no escapamento da voz
desabando pelos faróis da alma
afogando o motor do coração?

                            Ninil Gonçalves

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Sopro


Foto: Francis Wolff (John Coltrane durante a gravação de Blue Train)

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Sopro
                                                               a John Coltrane

Ar que desconhece o espaço definido
esgueirando-se em rodopios sutis
excitando os infrenes brônquios
exímios dançarinos impulsionados
pelo invisível e poderoso alimento
fugindo  pela verticalidade infinita
dessa verdade quente e desmedida
que rasga em sutileza a garganta
enlouquecida ventania desabando
pelo vazio gelado do mágico tubo
fôlego adentrando tranquilamente
deslizando pelo silêncio metálico
aquecendo por inteiro esse corpo
em colorida e inesgotável abstração
lançada em brasa flamejante do  peito
desabando na quentura do sopro
possibilitando a intensidade do grito
desvendando o trajeto que se ilumina
transformando em notas ferventes
a invisibilidade aconchegando-se
na plenitude conquistada no som
lançada sobre o frenesi dos corpos
inaugurando espasmos contínuos
arremessando-os por todos os cantos
absorvidos no redivivo instante
erguido no  rodopio infinito do sopro.

                                    Ninil Gonçalves

sábado, 31 de dezembro de 2016

Colcha


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Colcha

Acontece que o tempo tece
sem sobrolhos aprumados
tampouco olhares revirados
com o fio doído dos dias
o tecido abastecido de sombras
alternando pedaços luminosos
retalhos iluminados persistentes
 de acabamento pendendo ao irregular.

Em regressiva exatidão ou não
a certeza do findar-se se mostra
ampliando o valor de cada ponto
alinhavado no que lhe cabe
não cabendo em si de tantos pontos.
Retalho que se mostra exato
na imprecisão que conduz espontânea
à simetria do desigual preciso.

Estendida sobre a silenciosa cama
aguardando o sonho contínuo infinito
os retalhos se agrupam harmoniosos
cada qual no espaço que lhe cabe
desmedidamente complementar
na assimetria unívoca que grita
a vontade de ser totalidade plena
que só existe no amálgama construído
dos mínimos fragmentos fracionados
costurando o que só se vê no todo.

Ninil Gonçalves

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Diálogo





Diálogo

Gaveta do peito escancarada
jorrando o que não cabe em si.
Necessidade do diálogo pleno
enfrentando o perigo do ego.
Mínima parcela de culpa
ante o ato de vociferar o subjetivo,
máximo de consciência sobre
a pequenez do gesto de visibilidade
do mínimo ponto que me inaugura
na totalidade de múltipla vozes.
O esconderijo se mostra ao todo,
a todos se dispõe o vozerio da caverna
não mais repleta de sombras,
mas coberta sutilmente por uma
Inevitável transparência.


Ninil Gonçalves

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Lugar Para Esconder a Dor



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Lugar Para Esconder a Dor

                                              a Dom Paulo Evaristo Arns 

Tragam pra cá todos os infidelis
ao ato inaugurador de mais uma dor,
todos aqueles que não precisam rezar.
A reza rasa só deita na superfície
dos bancos vazios lustrados.
Tragam aqueles que a pátria que pariu
não  acalenta no sono que merecem,
tira-lhes a própria vontade de sonhar.
Amontoem-se nos altares, bancos, sacristias...
ousem na fala o que a reza da cartilha
silencia nos atos diários.
Que a ekklesia seja ato e não só lugar
seja verbo e não condicionamento de fala.
Que os corpos vivos se amontoem
num só calor sobre o mármore gelado
que a prece só tenha pressa em findar
com a mordaça e o grilhão impostos
ao corpo que é a verdadeira igreja.

Ninil Gonçalves

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Cadaveroso



Cadaveroso

Nomeio-me ato falho
Ao descobrir
A falácia empenhada
Sofrida
Busca desenfreada de sentido
Ao ser
Mero verso puído pequeno
Ante
A grandiosidade do sentir.

Defino-me inteiridão
Ante
O ato falho falado
E não sentido.
..............................
Despido da solidez
Entendo a imensidão
Usurpando o mísero
Sopro de engano.


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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

No Jardim

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No Jardim

Flor bicho palavra sol
nuvem nem ousa
vem vento roçar
pelo pele alma.
Altitude máxima para me alcançar:
sopro rente ao solo!
Me ausento na mínima grama rala
brotando sob os pés ausentes
esperando o abraço molhado
da gota sorridente caindo da folha.





Foto: Ninil Gonçalves
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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Vazio

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Vazio *

                                                                       Às crianças de Gaza

         

A lágrima é usada apenas para lavar os olhos
do sangue e da fuligem acumulados em excesso
sobre os delicados e impacientes cílios.
A dor ultrapassou o sentido desse líquido.
O pequeno e esvoaçante corpo,
acostumado em ligeiras  fugas
 sobre os contínuos  escombros
nas improvisadas brincadeiras
sucumbe ao peso esmagador
do vazio infindável e nebuloso
instaurado sob a necessidade incessante
de se colocar perante o que se chama de inverso,
 numa ilusória preeminência.
Subtraindo a excelência da descoberta
da grandiosidade que brota no outro.
O amontoado de lixo político avança,
sobrepondo o real valor humano.
Desfigurando e arrancando das faces
 a descompromissada gratuidade do riso
e a sutileza da mudança brotando na íris.
Cobram um valor demasiado alto
de existências exauridas de si,
constituídas na mecanicidade de dogmas
e valores encarceradores.
O rápido esvair de vida do pequeno corpo
enroscado sob um amontoado de aço e concreto
não é empecilho ao desenfreado avanço
da estrondosa gargalhada do poder.
Meros pontos de calor esfriando
sob o sol escaldante.
Meros invólucros de almas,
esvaziando-se de si.



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*  Absorções (2011)

Fotos: Mohammed Salem (2014)

sábado, 19 de abril de 2014

Pano de Chão








Pano de Chão

Lambendo cada vinco de tempo
esquecido ou vivido
espalhado pelo chão.
Deslizando-se sobre momentos
fugidios ou abraçados veementemente
arrastando para si o sim e o não.
Língua roçando cada fresta
disposta em geometria vã
direcionada à única absorção.
Amontoado de instantes outros
noutros se fazendo todo.
Amalgamada (de) composição
conspurcando os fios da pele
na invisibilidade espalhada
que só se mostra com o tempo.
Cuspe do tempo no granito
absorvido na lentidão do passo
torcido no ralo dos dias
vomitando-se a sobra
juntando-se aos novos resquícios
insistentes na superfície.
Seco e devidamente tatuado
com os vestígios diários
pela limpeza oferecida
dança solene ao vento
orquestrando seu plano de voo
reinventando seu plano de chão.





                                                           Foto: Ninil





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domingo, 30 de março de 2014

Gesto Imenso










Gesto Imenso

O silêncio dissolveu por completo
o mínimo que gritava amplitudes
infinitamente melódicas e sutis
impronunciáveis na velocidade cega.
A frieza se esparrama pelo corpo estático
tateia tranquilamente a imensidão
na imobilidade coreografada
absorvendo o sussurro do eco
fundindo a preciosidade do fragmento
na totalidade em fruição contínua
envolta na grandeza do gesto mínimo
atando a extensão diminuta do riso
à imperceptível inundação de lágrimas
conduzindo o silente coro dos poros
no grito que se descobre incomensurável
expandido em silêncio absoluto.



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sábado, 29 de março de 2014

Australopithecus Digital (1)

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Australopithecus Digital (1)

Vã locomoção desencadeada pelos sentidos
conduzindo à letargia dos passos adestrados
habituados à comodidade da simulação.
Tecnologia apregoando a reflexão do espanto
nas características assombrosas do novo
desdenhando o antigo ainda desconhecido.
Minúsculo chip cabendo todas as emoções
inaugurando o reservatório de cada um
descartando a infinitude disposta no invisível
redimensionado às usuais necessidades do ser.
Calcanhar antecipando qualquer movimento
que tenha brotado silenciosamente do córtex
em direção à descoberta de si mesmo.
Caminho estreitado ao imposto continuamente
 Reduzindo-se ao simulado no GPS de cada dia.
Calcanhar insistindo no aprumo desenhado
sobre rascunho elaborado pelos sentidos
desdenhando o valor atemporal de cada um
utilizando-os não muito além dos recursos
estagnando-os na mera funcionalidade irracional
entregando-os em sua complexa completude
 à virtualidade desconhecida pela epiderme
rumo ao que só o calcanhar oferece como caminho.





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quarta-feira, 26 de março de 2014

Superfície





Superfície

Cultuando o afeto na superfície
saboreando o quase na totalidade.
Dançando através da própria imagem
ignorando o desvanecimento musical.
Fazendo o caminho com o calçado
esquecendo os pés na próxima pegada.
Observando a luminosidade nas retinas
dissolvendo dos tons a profundidade.
Aceitando o tempo dos ponteiros
afogando-se na contínua duração do rio.
Monetarizando a eloquência do ser
alimentando a exiguidade no devir.
Revestindo-se em transitório brilho simulado
confundindo-se com os próprios objetos
pela opacidade cultivada e refletida.



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quinta-feira, 20 de março de 2014

Satisfeito


                                                   "Na facilidade com que o espírito se satisfaz, pode ser medida a extensão daquilo que está se  perdendo."  Hegel






                                                                        Tomatina



Satisfeito

Do céu da boca
ao inferno do ânus
o que torna distinta
a delícia da comida
do horror das fezes
é a digestão
eclodindo
em decomposição.
Tanto a saciedade
quanto o alívio
carregam em si

sinais de satisfação
de um corpo bem alimentado.
A dicotomia do satisfazer
ergue-se
já deteriorando-se
entre arrotos e flatos
tendo entre os dedos
uma nota de cem
como guardanapo ou papel higiênico.
-E dane-se o vazio gástrico
de quem o tem!


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terça-feira, 18 de março de 2014

Mais um ou Menos um










Mais um ou menos um

Quatro filhos, outras quatro bocas alheias
doze horas limpando a sujeira dos outros
sacolejando-se três longas horas na condução
cinco horas na posição vertical de descanso
uma nota e trinta dias pela frente na carteira
duzentos e cinqüenta motivos para desistir
uma bala no peito derretendo a amplidão
duzentos e cinqüenta metros beijando o chão
menos um aos olhos de quem só vê a si
mais um aos olhos de quem nunca se vê.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Escrita na Voz







Escrita na Voz

                                                                À Malala Yousafzai


Livros ao avesso da vida em si
conduzidos na ineficácia do dogma.
A verdade reluzente de única face
dizimando a multiplicidade do ser,
ansioso na infinita variedade de tons.
Páginas marcadas em firme escrita
pela dança de dedos infantis
coagulados na poça vermelha,
silenciosos sedentos rios de vida,
soluçantes por esparsos caminhos
de passos descalços uníssonos.
Imenso sussurro infinito
ousando pulverizar o silêncio implantado,
ecoando nos tímpanos anestesiados,
proclamando-se voz na algaravia
sufocando o berro no sussurro.
Busca incessante na suavidade da voz
sufocar a fraqueza da força,
redimensionar o estampido no crânio
na pólvora que incendeia o ser
na mesma chama de conhecimento
que cabe a cada um na totalidade,
que não cabe em si tamanha a voz
esparramada na escrita da vida.






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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Autorretrato







Autorretrato

Ofereça um recuo...consideravelmente distante
na obtenção real dessa imagem destoante
daquilo que se apresenta em linguagem
filtrada na envergadura usual desse ilusório
condicionamento revestido em tépido amontoar
de palavras na docilidade palatável do verso.
A rusticidade capturada pelos afoitos olhos
foge à musicalidade crescente e enganadora
derramada pela página em lágrimas fabricadas.
Talvez a paralaxe esconda algum ponto de interesse
além desse mero desconforto de formas irregulares
estruturadas em desacordo com o ritmo ao redor.
Talvez! Talvez!! Talvez!!!
Talvez os olhos embotados na contumaz saciedade
dissolvam-se apenas na superficialidade rústica e atroz
desse objeto fora de foco da perspectiva usual
que estabelece na imagem a totalidade reduzida
na instantaneidade oferecida pela superfície.