segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

V.

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V.

Na interminável escuridão que cobre a noite,
descubro-me ínfimo ponto de vida
diante da eternidade que se mostra
indizível e perturbadora,
pairando sobre o confinamento dos dias,
encarcerados nessa mínima existência.
Entrego todo meu desespero
na invisibilidade do acalanto,
inaugurado no vazio noturno
através de sua corpórea locução.
A opulência descomunal
que brota de teu antigo corpo,
suga-me a retina,
arrastando consigo todo o ser
e qualquer instante vindouro.

Sua imagem não me invade
na facilidade da questionável repulsa,
pré-concebida no afago do instantâneo.
Busco-te nos recantos mais sombrios,
onde o tempo sucumbe à amplitude do seu existir.
Te encontro entre camadas de poeira,
amontoado entre outros corpos esquecidos.

Instaura uma galopante ansiedade
antecipando contínuos frêmitos
de inevitável deleite
do meu...do meu...do meu...do meu,
já anestesiado e flutuante corpo.
Sacodem-me teus explosivos urros.
Dissolvem-me teus gotejantes sussurros,
dissipando o sufocante silêncio,
que escorre lentamente
pelas úmidas e frias paredes do quarto,
amplamente invadido por sombras.
Trompas Wagnerianas
gritam de teu comprimido corpo,
infligindo-me a dor que de ti exala,
tendo-me cúmplice desse grito
interrompido num nó na garganta.

Teu corpo trespassado de uma só vez
pelo brilhante e pontiagudo metal,
gira insistente e mecanicamente
diante de meus espasmos e suspiros,
alçando-me numa inevitável levitação.
A lâmina desliza suave e paciente
pela totalidade do riscado corpo,
profundamente tatuado em sonoros sulcos.
Gritos eclodem repentinamente
entre pausas e miasmas schöenbergnianos,
refazendo a estranha melodia
entre a inércia absoluta dos móveis.
Os giros ininterruptos atravessam a noite
evocando os mais belos e estranhos sons.
Seu corpo não se entrega ao cansaço,
sacudindo o quarto por inteiro
nessa matemática espiritual.
A fadiga finalmente alcança-me,
numa onda de torpor e distanciamento.

Calo-te num abrupto e displicente gesto.
Pondo-me numa inevitável horizontalidade,
flutuo entre ruídos e acordes inexistentes.
Anseio pela escuridão de amanhã,
quando tocarei novamente teu lindo corpo,
perfurado e musical.

Ninil



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