quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Axis mundi - Nelson de Oliveira

.




Axis mundi – O Jogo de forças na Lírica Portuguesa Contemporânea. Nelson de Oliveira

O novo livro de Nelson de Oliveira lançado pela Ateliê Editorial, trata da recente cena poética de Portugal ou, mais especificamente, de dez poetas que ele considera os mais importantes nesse jogo de forças da lírica portuguesa atual. O livro é o resultado da sua tese de doutorado e, diga-se de passagem, um estudo maravilhoso sobre poesia.
O livro não se resume apenas a um estudo aprofundado sobre estes poetas portugueses, mas traz um esboço muito bem traçado de toda lírica portuguesa, mostrando o quanto o autor se dedicou ao estudo de seu tema. Nelson de Oliveira não se contenta em permanecer apenas nas questões que envolvem o substrato da lírica destes poetas e busca em autores seculares, os elementos característicos de cada época e cada autor selecionado, para mostrar o desenvolvimento dos elementos essenciais da lírica portuguesa.
Além de toda riqueza empírica que o autor imprime à obra, ele também discorre sobre questões sociais e subjetivas que cada época impõe sobre os aspectos cruciais que cada obra carrega como valor histórico e social. Em alguns momentos percebe-se um profundo senso crítico das questões sociais que levaram os autores a percorrer determinados caminhos que se mostravam única via para o desenvolvimento de sua obra.
No capítulo I, chamado “O que é poesia?”, Nelson de Oliveira busca uma definição para essa linguagem e lista algumas de autores famosos que são no mínimo belíssimas, mas descontente com a limitada abrangência que essas definições podem oferecer ao seu elemento de estudo, busca em Bakhtin, num estudo de Cristóvão Tezza, os elementos necessários para uma provável e mais abrangente definição, mas a definição do grande filósofo da linguagem, mesmo se mostrando engenhosa, apresenta alguns problemas, e que segundo o próprio Nelson de Oliveira, acaba dando margem a lacunas. Diante de tudo isso, o autor radicaliza e elabora a sua própria definição do que é poesia, sendo de certa forma até irônico com ela, mas mostrando de que maneira essa definição poderá facilitar seu estudo.
Ao longo do livro notamos o quanto é imenso conhecimento do autor sobre as questões abordadas e que suas leituras lhe forneceram uma vasta e sólida estrutura para a compreensão dos autores estudados. Suas inquietações diante dos aspectos sociais que limitam e estreitam a experiência humana em sua totalidade são no mínimo essenciais e que colocam a poesia como grande catalisadora de experiências reais e significativas para o desenvolvimento humano. Em um dos muitos momentos significativos do livro, Nelson de Oliveira diz:
“ Hoje, depois de décadas e décadas de distanciamento crítico, sabemos que tanto a religião como a ciência não são duas formas de ver o mundo, são antes duas formas de aceitar o mundo. Ambas dão explicações categóricas sobre o universo e seus fenômenos naturais intrigantes, explicações cujo principal objetivo é reconfortar os que sabem que vão morrer. Porém o indivíduo comum, incapaz dos grandes vôos reflexivos, não tem acesso a suas raízes profundas e a suas equações fundamentais. A ele, impedido intelectualmente de compreender os pressupostos, cabe apenas escolher uma dessas duas formas e seguir as prescrições sem hesitar.” (Oliveira, pag. 61, 2009).
Na outra metade do livro, Nelson de Oliveira discorre sobre os poetas escolhidos, um a um, num estudo sério que mostra os elementos constitutivos da lírica de cada um deles, sem que qualquer traço de algum vínculo emotivo se sobreponha à sua empreitada crítica, que se mostra extremamente valorosa para a compreensão de cada autor.
Este Axis mundi de Nelson de Oliveira, além de um profundo estudo sobre a lírica portuguesa de outrora e atual, também é uma grande reflexão sobre o quanto a poesia tem a oferecer como elemento de questionamentos e descobertas. Mostra também a relevância da poesia como uma imensa força estruturada na linguagem que possibilita um diálogo mais profundo do homem com questões históricas, sociais e espirituais, que muitas vezes escapam daqueles cuja linguagem não ousa ir além daquela oferecida pelo simulacro, impossibilitando o grandioso vôo a que todos têm direito.

Ninil Gonçalves





Foto: Tereza Yamashita

.

3 comentários:

  1. Fiquei muito lisonjeado com a crítica que você preparou do "Axis mundi". Você apreendeu plenamente o espírito desse livro. É claro que não posso deixar de pensar que isso aconteceu porque o sentido da poesia está totalmente no teu projeto de vida. Muito obrigado por esse presente. Espero que sua resenha e meu estudo da lírica portuguesa contemporânea motivem as pessoas a procurar conhecer a obra dos poetas analisados, todos excelentes.

    ResponderExcluir
  2. Lisonjeado fico eu, tanto pela visita, quanto pelo comentário. Teu livro é um presente para nós leitores de poesia. Além da valiosa contribuição em apresentar estes ótimos poetas, "Axis mundi" também nos oferece um trabalho sério que mostra a relevância dessa linguagem na compreensão do ser diante das coisas, ou como afirmou Heidegger:"Poesia é a fundação do ser mediante a palavra"

    ResponderExcluir