quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Alucinação

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Alucinação


Passados trinta e quatro anos de lançamento do álbum “Alucinação” de Belchior, é difícil entender como um disco tão grandioso no que se refere à concepção artística utilizada para se fazer o que chamamos de MPB, esteja tão esquecido e não aparece em nenhuma das oportunistas listas de “melhores” de alguma coisa. O disco é magnífico em todos os sentidos e mostra o compositor em seu momento mais intenso, passando por uma sonoridade limpa e com arranjos de violões marcantes, além de fugir do excesso de sintetizadores, algo comum numa época bastante influenciada pelo rock progressivo.

Talvez algumas questões histórico-musicais desanuviem alguns elementos que deixam este disco e o próprio Belchior fora da “parede da memória” da nossa música.

Sabemos que o senhor Caetano Veloso é um dos grandes compositores deste país e que sua contribuição para a valorização MPB é inegável, mas alguns fatos sobre a atuação de Caetano Veloso nos bastidores do circo “mpbístico” descortinam a vaidade e a fúria do músico com outros colegas que supostamente poderiam lhe tomar o posto de ícone máximo da MPB, como acredito que ele assim se via e que ainda continua achando. No começo dos anos 1970, os tropicalistas já haviam conquistado o posto de renovadores da música brasileira, com todo mérito, pois buscaram elementos da cultura popular e adicionaram o novíssimo tempero do rock psicodélico, estava tudo resolvido: a preocupação popular e o apelo comercial. Mas a fórmula foi se esgotando, assim como em qualquer movimento. Então começaram a ser lembrados aqueles que realmente são referenciais de qualidade, Caetano, Gil, Gal, Mutantes e Tom Zé, que resistiram ao tempo. Mas outros movimentos foram surgindo, como o Clube da Esquina e “O pessoal do Ceará”..., este segundo foi o que sofreu uma asfixia maior por parte da mídia e das gravadoras.

“O pessoal do Ceará”, como era chamado esse grupo de músicos, trazia uma poética diferenciada e tratava de questões cotidianas do povo nordestino, além de letras embebidas em conteúdos políticos e contestatórios, bem diferente dos elementos primordiais do tropicalismo, onde o conteúdo, como já foi classificado por alguns, como alienante. O sucesso fulminante de Fagner com o disco “Manera Fru Fru, Manera” deixou Caetano um tanto insatisfeito, pois ele possuía regalias na gravadora e via seu reinado se decompondo repentinamente, então, armou-se um grande circo de vaidades e Fagner mudou-se para Paris, voltando apenas dois anos depois, pronto para gravar novamente. As brigas e os fatos que as cercam pouco interessam aqui, o que quero mostrar é que, ás vezes essa fúria enlouquecida que envolve qualquer meio onde o ser humano se encontra, pode soterrar coisas importantes que estão ao redor e é uma vergonha que isso também se projete dentro da arte, onde teoricamente deve haver uma superação da individualidade “absoluta” em prol de uma construção coletiva, já que a nossa noção e absorção de linguagem nasce dessa totalidade arbitrária que constrói o ser e o insere entre todos os outros.

O que acabou sendo deixado de lado, com toda essa vaidade e necessidade ególatra, não foi somente a perda de uma geração de grandes compositores, mas também o enriquecimento da música brasileira, já que muita gente desistiu da música ao perceber que as coisas não eram bem o que pareciam e as gerações seguintes continuam desconhecendo a grandeza destes artistas que muitas vezes são colocados como “gente do segundo time”, sendo que Ednardo e Belchior são compositores importantíssimos. Mas o caso mais grave é de Belchior que sofreu o ostracismo, mesmo tendo suas músicas gravadas pela maior cantora do Brasil. Elis, que assim como fez com Milton Nascimento, percebeu a grandeza de Belchior e eternizou Algumas de suas melhores canções. Elis também sofreu o boicote de Caetano, pois ele raramente cita sua importância para a música brasileira.

O disco “Alucinação” é tão bom que parece uma coletânea de sucessos. As músicas se sucedem numa demonstração de arte de alto nível do início ao fim, são trinta e poucos minutos de do mais puro deleite. Em “Apenas um Rapaz Latino Americano”, que é um ataque direto a Caetano, ele diz:

"Mas trago, de cabeça

Uma canção do rádio

Em que um antigo

Compositor baiano

Me dizia

Tudo é divino

Tudo é maravilhoso...,"

Depois...

"Mas sei que nada é divino

Nada, nada é maravilhoso

Nada, nada é sagrado

Nada, nada é misterioso, não..."

Em “Fotografia 3X4” ele fala sobre a dificuldade que o nordestino encontra ao chegar ao sudeste à procura de uma vida menos sofrida e encontra toda a dureza de um mundo diferente e envia um recado ao Caetano, desta vez nominalmente:

“Veloso o sol não é tao bonito pra quem vem

do norte e vai viver na rua”

Ao bater de frente com aqueles que manilpulam o mercado fonográfico e com artistas que mandam e desmandam nas tendências, acabou sendo engolido pelo ostracismo, um preço caro demais para quem tem uma das mais belas poéticas da música brasileira, mas como ele mesmo dizia em “A Palo Seco” “E eu quero é que esse canto torto, Feito faca, corte a carne de vocês.” Outro fator que percebi - este de caráter especulativamente pessoal - foi a questão do sotaque nordestino estar sumindo da voz dos artistas mais midiáticos. Recentemente ao colocar um cd do Belchior percebi um riso instantâneo vindo de alguém que não conhecia Belchior. Perguntei o por quê do riso, já que se tratava de um tema triste e obtive a seguinte resposta: “Parece com o Falcão!” Então percebi que não se trata apenas de falta de informação musical, mas também de preconceito, pois sabemos que infelizmente o preconceito ao sotaque nordestino é constante e serve muitas vezes de paródia devido à fonética, no caso do Belchior isso é mais intenso , pois ele parece um “Bob Dylan do nordeste”. Fico feliz quando alguns compositores como Lenine e Otto deixam sua voz sair naturalmente, sem aquela preocupação com o “mercado”, pois revela consciência sobre a identidade e a importância que essa relega ao ser. Infelizmente, a mídia televisiva criou o simulacro do real sotaque brasileiro, que é aquele proferido nas telenovelas e nos telejornais. São Paulo e Rio de Janeiro representam o Brasil real, enquanto toda a beleza e vasta riqueza linguistica que compõe este gigantesco país são colocadas como meros exotismos ou preconceituosamente tachadas como algo estranho na uniformizada língua televisiva.

Sabemos que a mídia tem esse ritmo de engolimentos sucessivos em prol de sua manutenção mercadológica do que é colocado como contínuo “novo” e tem na descartabilidade o combustível perfeito para se construir esse real meticulosamente simulado. A música ou o que se supõe definir como música, é a linguagem artística que está mais presente na vida das pessoas, pois quase todos gostam de música, mas geralmente as que são mais apreciadas são aquelas presentes constantemente na mídia e aquelas de fácil assimilação sonora ou como é chamada “easy listening”. Um álbum de ótima produção, instrumentação de primeira e para completar, uma poesia cortante e rara na música brasileira não é o tipo de música que o comérci o quer em seu estoque, principalmente pelo teor existencial das letras. Alguns sons têm características especiais que os tornam, senão atemporais, pelo menos livres da datação imediata. Esse é o caso do poeta Belchior e seus quatro primeiros discos, em especial “Alucinação”, que traz um conjunto de canções irretocáveis que o tempo cuidou de torná-las ainda melhores.


Ninil




Belchior - Auto-retrato

3 comentários:

  1. puta texto hein, parabéns
    só que achei que você tirou algumas conclusões do Caetano meio que sem fontes

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  2. Obrigado Felipe.
    Esqueci de colocar no texto a minha paixão pela escrita do Caetano. Sua poesia é uma das que mais me marcaram e o coloco entre os cinco melhores compositores da música brasileira. Todos sabemos da força da sua voz e da influência que esta tem sobre a mídia e muitas vezes ela se mostra esnobe e arrogante. Um livro que fala sobre a música popular nos anos setenta e que é muito revelador, é "Nada Será Como Antes" de Ana Maria Bahiana, no qual ela aborda questões envolvendo Caetano e Fagner.
    Infelizmente o simulacro midiático que cuida da imagem do ídolo nos oferece apenas o aspecto positivo do ser, que assim como nós, também pode ser contraditório, egoísta, medroso...afinal, humano.

    Um abraço.

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  3. Ótimo texto, parabéns!
    Belchior é, pra mim, o maior compositor nacional. Quando escuto suas músicas me sinto em uma plano metafísico, até porque muitas canções dele retratam bem minha história de vida. Assim como ele, sou cearense, vindo do interior pra cidade grande, em busca de seus sonhos, apesar de estar meio cansado de buscar esses sonhos. É uma pena ver pessoas que riem de mim por escutar um cantor como Belchior, principalmente pela minha idade, 18 anos, não sabem eles a riqueza que esse poeta cearense traz em suas músicas, não sabem eles o que é sentir o som e aletra de uma bela canção tocando sua alma...

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