domingo, 5 de junho de 2011

A Pele da Rua

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A Pele da Rua



A pele das ruas desanda em unidade diversificada

absorvendo passos descalços de si ensimesmados,

pisada no desconforto do compasso apressado

construído no ritmo alheio sublevado em outro,

tão outro, tão outro do que lhe cabe em unicidade.

Beleza misturada ao som de cada corpo móvel

deslizando sobre células ansiosas em caminhos,

imóveis ante à letargia de passos suspensos

ignorando a construção de outros descaminhos

pulsantes pelas artérias de novas esquinas.

A pele da rua absorvendo o ritmo dos seres

sacudida por risos, gritos, danças e pés distraídos.

Epiderme constituída ás necessidades humanas

camada por camada edificando o suposto progresso,

camada por camada engolindo o sangue dos dias,

cama por cama acolhendo corpos esquecidos.


Ninil





Fotos: Ninil

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Cristina nos Olhos




Cristina nos Olhos


Lâmina negra desenrolando-se

rasgando o verde silencioso

afunilando o rumo certeiro

entre falantes memórias soltas

gritando passado em sussurros

de nítida atemporalidade verbal

destituindo da velocidade do olhos

o apreendido no raso da retina

restituindo o que se enroscou

no abismo profundo do olhar

espiralado ao primitivo instante

deitando-se em lembranças diárias

do ruidoso afago das esquinas

do insistente murmúrio das águas

na noite que nunca termina

no dia que nunca se finda

na vida que anda a passos largos

nos instantes que nunca se perderam

recuperados nos delicados acordes

que brotam entre pedras, gramas,

tijolos...

em cada passo que se perde

onde sempre me acharei.


Ninil






Fotos: Ninil

domingo, 24 de abril de 2011

Casa

Defrag - 'Nebu




 
Casa


Os pombos que arrulhavam no forro que não tenho

Impediram-me de dormir metade da noite pra trás

na confusão de bater de asas e bicos dentro do sofá

que foi vendido a alguém na semana passada.

O pingo de água prestes a desabar da torneira

retrocedeu impetuoso pelo corpo metálico

deslizando e desaparecendo no tubo ressecado.

Os alto-falantes absorviam as notas do vento

ruídos externos e o abraço contínuo da poeira.

A TV desconectada de sua elétrica alimentação

refletia apenas lentos vultos na tela apagada.

As molas da cama perfuravam o corpo acordado

horizontalizando-se mediante o peso do invisível.

A descarga sugou juntamente com os dejetos

o corpo que se ocupava das sobras inexistentes

do alimento que boca alguma se apraz em comer.

Os livros trepidavam no fogo contínuo do ser

encharcado pelo sereno incessante do mundo

depois que o telhado perdeu sua utilidade.


Ninil




sexta-feira, 22 de abril de 2011

Maracatu



Maracatu


Solo tremendo sob a explosão do couro

séculos rompidos na continuidade indivisível

erguidos em uníssona batida atemporal

rasgando o concreto em direção ao útero

telúrico aconchego ancestral perpétuo.

Súditos da folia-rainha dos corpos insanos

súbitos reinos erguidos da realeza de cada um

cortejo rasgando o ar em involuntária dança

sublevada pela imprescindível necessidade

do movimento orquestrando o ritmo do ser.

Turba rumando flutuante a qualquer ponto

estabelecendo seu espaço dentro do som

dentro de cada batida resgatando o contínuo

na estrada reconstituída ao elo passado

aconchegando todos em única nota infinita.

Cortejo explodindo os viciados tímpanos

na insistente e barulhenta caixa torácica

estilhaçando qualquer sinal de mínima inércia

instaurando a atemporalidade sonora

sob a entrega dos corpos que flutuam

dentro de cada batida do tambor do peito.


Ninil


  Fotos: Ninil

domingo, 6 de março de 2011

Poesia - Lee Chang-dong

"A palavra quando é criação desnuda. A primeira virtude da poesia tanto para o poeta como para o leitor é a revelação do ser. A consciência das palavras leva à consciência de si: a conhecer-se e a reconhecer-se."

Octavio Paz (de "A Propósito de López Velarde")









Poesia - Lee Chang-dong

Quem for assistir “Poesia” do sul-coreano Lee Chang-dong com aquele olhar preparado para uma invasão de sucessivas epifanias e de uma beleza plástica que remeta a alguns diretores orientais como Zhang Yimou, sairá frustrado da sala, pois o poético em questão é tratado do modo mais realista possível. Essa noção de que a palavra poesia de imediato leva a efeitos sinestésicos parece lugar-comum no cinema, principalmente quando o filme leva no nome esse substantivo. O próprio Aurélio define poesia como “Arte de criar imagens, de sugerir emoções por meio de uma linguagem em que se combinam sons, ritmos e significado.”


Bem, isso me parece mais uma delimitação do que o termo poético pode ter em relação ao que se espera de poesia e é justamente isso que o diretor desconstrói no filme: essa definição rasa que a poesia acabou tendo para a sociedade moderna. A poesia passou a ter um papel tal qual uma mera perfumaria que enfeitasse a superficialidade humana. Sabemos que a menor prateleira de uma livraria é a de poesia e que se algum poeta acha que vai ganhar a vida com livros de poemas, prepare-se para passar todos os tipos de necessidades possíveis.

Poesia vem do grego poíesis (de poien: ação de fazer algo, criar, fabricar, transformar. O poeta tinha uma função primordial na sociedade grega arcaica, pois dotado do dom da vidência, era o poeta que entrava em contato com o outro mundo, era quem narrava o feito dos Deuses e assim escrevia a história por ter um contato direto com a Verdade (alétheia), justamente por possuir a memória (mnémosyné). No entanto, houve um processo de laicização referente a esses portadores da verdade, numa substituição do pensamento mítico em prol de outro, onde a verdade era obtida somente através da demonstração e argumentação, o chamado pensamento filosófico.A poesia continuou atravessando os séculos como uma linguagem especial, mas aos poucos sua abrangência foi se tornando diminuta, como se o poder em conceder a verdade aos ouvidos modernos, ressoasse fora do tom ou simplesmente não fizesse mais sentido em um mundo, no qual o comércio e a praticidade dão sentido ao Ethos social.

Tudo isso foi colocado porque o filme se inicia com uma metáfora poderosíssima que remete a Heráclito, o qual disse que “nunca nos banhamos no mesmo rio” porque estamos em contínua mudança. O filme inicia-se com a imagem de um rio, crianças brincando ao redor e um corpo boiando na água, ou seja, vida, mudança e morte. Aos poucos estes três itens vão se apresentando à vida da protagonista. Mija é uma senhora de 65 anos que vive com o neto e trabalha como “cuidadora” de um senhor que aparentemente sofreu um AVC. Ela descobre que está com Alzheimer em fase inicial, que é chamado de demência, mas aparentemente isso não chega a abalá-la. Ela se inscreve para um curso de poesia e justifica-se dizendo que sua filha dizia que ela tinha poesia na veia porque gostava de flores e falava coisas estranhas. Descobre que o corpo que boiava no rio era de uma aluna que seu neto havia estuprado junto com outros colegas. Os pais destes outros alunos estavam tentando silenciar a mãe da menina morta com um acordo que envolvia dinheiro, pois eles “tinham pena da menina, mas isso iria destruir a vida de seus filhos”. É nesse contexto de poder, doença e hipocrisia que ela tenta desenvolver seu aprendizado de poesia.

Assim como o rio de Heráclito aparece no início, todos os acontecimentos vão passando por ela e desencadeando uma mudança significativa em sua vida, mediada pela concepção de que a poesia nos oferece um olhar diferente sobre as coisas, não é por acaso que ela tem Alzheimer, contrapondo a função da memória para os poetas gregos. Seu professor diz que a poesia é a busca pela beleza, mas sua realidade necessita de outro olhar poético que represente esse real, assim como Baudelaire se prontificou em fundar a poesia moderna usando os elementos cotidianos evitados na poesia.

O real vai sufocando o êxtase proposto pelo professor para a criação poética, o personagem não consegue escrever conforme a teoria proferida pelo mestre. Em determinado momento, quando ele diz que deve-se olhar a maçã de um modo diferente para compreendê-la, ela diz: “melhor comê-la, em vez de olhá-la”, assim ela passa a enfrentar os fatos conforme a realidade se apresenta e desta forma seu poema surge, assim como sua vida, embebido na mais pura realidade e sem desvencilhar o olhar na experiência que todo esse rio de fatos lhe trouxe.

A força deste belíssimo filme consiste, entre muitos atributos, na opção do diretor em seguir por uma via realista para tratar da “poesia”, já que essa se mostra abstrata e inatingível para personagem. Através desse real (compartilhado) o diretor mostra que a descoberta ou invocação da poesia se dá justamente pelo viver em si, com a dialética construindo as contradições e afirmações de cada um, mas exige que nossa totalidade (em contínuo aprendizado) busque (se necessário for) essa investigação e transformação do ser através dessa poderosa linguagem.

Ninil





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sábado, 5 de março de 2011

Benedito Nunes 1929 - 2011

Trecho de  "Hermeneutica e Poesia" pags. 74 e 75

"A ciência da linguagem costuma ter como prolegômeno o tão famoso esquema da comunicação. Há um emissor de signos e há um receptor, abstratamente isolados. Mas tanto o emissor quanto o receptor não são apenas sujeitos, mas também interlocutores. O fenômeno de poder falar um ao outro seria uma condição transcendental da linguagem... Mas duas outras condições também são pertinentes: o ouvir, o poder-ouvir e o silenciar. Ora, quando ouvimos, ouvimos sons configurados; ao ouvir uma melodia, ou distinguir uma harmonia na música, ou ao ouvirmos alguém falar, estamos voltados para a significação daquilo que nos é transmitido. A outra condição que nos parece notável e pode ser aplicada não apenas à interlocução cotidiana como também à poesia é a possibilidade de silêncio. Já o silenciar faz parte do falar. Há certas coisas que não dizemos expressamente e deixamos subentendidas. O silêncio delimita o “falatório”, uma espécie de objetificação da linguagem, nossas palavras transformadas em coisas reificadas. Na medida de um certo silêncio conseguimos, ás vezes, dizer melhor, seja falando ou escrevendo."

Benedito Nunes


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Malabarizando-se





Malabarizando-se



Malabarize-se

no sussurro exato do tempo

tão distante, sempre próximo

soprando os segundos ante os pés

escrevendo no solo a leitura do ser

distribuindo-se em rascunho perfeito

inexato mal acabadamente exato

deitado sobre a trilha rasgada no peito

desse chão batido em cardíaco passo

desconstruindo a mecânica dos joelhos

malabarizando-se


Ninil




"Rabbit in Your Headlights" UNKLE

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Maré





Maré



Na tranquilidade exata

nascida de espontânea explosão

a contínua coreografia de ininterruptos giros

desvenda o alvo corpo

ansioso em romper a barreira

dessa invisibilidade que os envolve.

Rompendo a estagnação do eixo

lambe o corpo líquido sutilmente

erguendo a pele aquosa em frêmitos diários

na languidez que se esparrama além de si.


Ninil



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Chama



















Chama



Toque de recolher soando nas calçadas

somente recolheu as antigas amarras

encharcadas em ecos de gritos sufocados,

soprou dos olhos as camadas de poeira
instaurando na retina o reflexo das ruas

retomando o brilho ofuscado pela tela.

Reza soprando raivosa o canto do meio-dia

entre o ranger de dentes despedaçados,

cuspindo o hálito amorfo e resignado

pago em regozijos bélicos e tronos eternos.

Reza irrompendo canto furioso ante sirenes,

lágrimas involuntárias lavando o novo olhar

trazendo na íris a quentura do deserto

queimando...

como a chama silenciosa que acorda.


Ninil



Tom Waits - "God's Away On Business"

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Chuva

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Foto: J B Neto


Chuva


Goteira martelando a cabeça

Fio de paciência sugado pelo ralo

Esgoto cuspindo tudo de volta

Ossos novamente enregelados

Jorro contínuo céu abaixo

na beleza cristalina coreografada

O choro, o grito, o medo, a lama

O sofá e a TV assistem à calçada

O carnê, a conta e o imposto

boiam em fragmentos imundos

entre os corpos de volta à terra

num interminável abraço coletivo.


Ninil




sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Chuva


Foto: William Gedney



Chuva

Sopro.

Olhos vendados na claridade

lambendo o brilho molhado

sob o calçado, sob o pneu, sob a luz.

Projétil do olhar engolindo o silêncio

asfalto, calçada, postes encharcados

asas chacoalhando gotas no fio

fio de água no canto da pedra

grama dançando a umidade no ventre.

Gotas rasgando o infinito invisível

batendo nas latas, nas folhas, na pele.

Encharcada, repleta e chorosa

lava o instante por inteiro

sai flutuando vaporosa e breve

entre eletricidade e explosões.


Ninil

Foto: Ninil

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dead Can Dance - Yulunga

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O canto (exercício sub-mântrico irregular)


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O Canto



Me encanto com o canto

que brota em sutil acalanto

destituindo da facilidade do pranto

a óbvia construção do desencanto

ante o desenrolar desse manto

onde não se assemelha o quanto

à mágica emanação do canto,

escorrendo dos lábios em equilíbrio tanto!

Se espalhando por todo canto

não medindo quanto nem portanto

apenas distribuindo seu encanto.


Ninil







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domingo, 12 de dezembro de 2010

Mergulho Contínuo

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Mergulho Contínuo

Cultivando o tempo ao sabor do rio.

Lambendo as inéditas margens

na continuidade derradeira do ir,

arrastando em si

a completude que instaura

o instante que já se vai...

Colhendo nuances construídas

num lance de dados.

Dói a margem abandonada

dilui o fôlego a desejada

mas regozija o mergulho

no nunca antes submergido,

afogando-se

no fluxo ausente de medida.

Grito engolindo a garganta

afogada no fluxo contínuo

do infinito eco do tempo.


Ninil






domingo, 5 de dezembro de 2010

Satisfeito

"Na facilidade com que o espírito se satisfaz, pode ser medida a extensão daquilo que se está perdendo". Hegel








Tomatina na Espanha





Satisfeito.



Do céu da boca ao inferno do ânus,

o que torna distinta

a delícia da comida

do horror das fezes

é a digestão,

pois tanto a saciedade

quanto o ansiado alívio

exortam festivamente

sinais de satisfação

de um corpo bem alimentado.



A dicotomia do satisfazer

ergue-se, já deteriorando-se

entre arrotos, borborigmos

mastigadas e contorções,

tendo entre os dedos

uma nota de cem

como guardanapo

ou papel higiênico



e dane-se a fome...

de quem a tem.



Ninil






Foto: Kevin Carter

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sábado, 4 de dezembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Alucinação

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Alucinação


Passados trinta e quatro anos de lançamento do álbum “Alucinação” de Belchior, é difícil entender como um disco tão grandioso no que se refere à concepção artística utilizada para se fazer o que chamamos de MPB, esteja tão esquecido e não aparece em nenhuma das oportunistas listas de “melhores” de alguma coisa. O disco é magnífico em todos os sentidos e mostra o compositor em seu momento mais intenso, passando por uma sonoridade limpa e com arranjos de violões marcantes, além de fugir do excesso de sintetizadores, algo comum numa época bastante influenciada pelo rock progressivo.

Talvez algumas questões histórico-musicais desanuviem alguns elementos que deixam este disco e o próprio Belchior fora da “parede da memória” da nossa música.

Sabemos que o senhor Caetano Veloso é um dos grandes compositores deste país e que sua contribuição para a valorização MPB é inegável, mas alguns fatos sobre a atuação de Caetano Veloso nos bastidores do circo “mpbístico” descortinam a vaidade e a fúria do músico com outros colegas que supostamente poderiam lhe tomar o posto de ícone máximo da MPB, como acredito que ele assim se via e que ainda continua achando. No começo dos anos 1970, os tropicalistas já haviam conquistado o posto de renovadores da música brasileira, com todo mérito, pois buscaram elementos da cultura popular e adicionaram o novíssimo tempero do rock psicodélico, estava tudo resolvido: a preocupação popular e o apelo comercial. Mas a fórmula foi se esgotando, assim como em qualquer movimento. Então começaram a ser lembrados aqueles que realmente são referenciais de qualidade, Caetano, Gil, Gal, Mutantes e Tom Zé, que resistiram ao tempo. Mas outros movimentos foram surgindo, como o Clube da Esquina e “O pessoal do Ceará”..., este segundo foi o que sofreu uma asfixia maior por parte da mídia e das gravadoras.

“O pessoal do Ceará”, como era chamado esse grupo de músicos, trazia uma poética diferenciada e tratava de questões cotidianas do povo nordestino, além de letras embebidas em conteúdos políticos e contestatórios, bem diferente dos elementos primordiais do tropicalismo, onde o conteúdo, como já foi classificado por alguns, como alienante. O sucesso fulminante de Fagner com o disco “Manera Fru Fru, Manera” deixou Caetano um tanto insatisfeito, pois ele possuía regalias na gravadora e via seu reinado se decompondo repentinamente, então, armou-se um grande circo de vaidades e Fagner mudou-se para Paris, voltando apenas dois anos depois, pronto para gravar novamente. As brigas e os fatos que as cercam pouco interessam aqui, o que quero mostrar é que, ás vezes essa fúria enlouquecida que envolve qualquer meio onde o ser humano se encontra, pode soterrar coisas importantes que estão ao redor e é uma vergonha que isso também se projete dentro da arte, onde teoricamente deve haver uma superação da individualidade “absoluta” em prol de uma construção coletiva, já que a nossa noção e absorção de linguagem nasce dessa totalidade arbitrária que constrói o ser e o insere entre todos os outros.

O que acabou sendo deixado de lado, com toda essa vaidade e necessidade ególatra, não foi somente a perda de uma geração de grandes compositores, mas também o enriquecimento da música brasileira, já que muita gente desistiu da música ao perceber que as coisas não eram bem o que pareciam e as gerações seguintes continuam desconhecendo a grandeza destes artistas que muitas vezes são colocados como “gente do segundo time”, sendo que Ednardo e Belchior são compositores importantíssimos. Mas o caso mais grave é de Belchior que sofreu o ostracismo, mesmo tendo suas músicas gravadas pela maior cantora do Brasil. Elis, que assim como fez com Milton Nascimento, percebeu a grandeza de Belchior e eternizou Algumas de suas melhores canções. Elis também sofreu o boicote de Caetano, pois ele raramente cita sua importância para a música brasileira.

O disco “Alucinação” é tão bom que parece uma coletânea de sucessos. As músicas se sucedem numa demonstração de arte de alto nível do início ao fim, são trinta e poucos minutos de do mais puro deleite. Em “Apenas um Rapaz Latino Americano”, que é um ataque direto a Caetano, ele diz:

"Mas trago, de cabeça

Uma canção do rádio

Em que um antigo

Compositor baiano

Me dizia

Tudo é divino

Tudo é maravilhoso...,"

Depois...

"Mas sei que nada é divino

Nada, nada é maravilhoso

Nada, nada é sagrado

Nada, nada é misterioso, não..."

Em “Fotografia 3X4” ele fala sobre a dificuldade que o nordestino encontra ao chegar ao sudeste à procura de uma vida menos sofrida e encontra toda a dureza de um mundo diferente e envia um recado ao Caetano, desta vez nominalmente:

“Veloso o sol não é tao bonito pra quem vem

do norte e vai viver na rua”

Ao bater de frente com aqueles que manilpulam o mercado fonográfico e com artistas que mandam e desmandam nas tendências, acabou sendo engolido pelo ostracismo, um preço caro demais para quem tem uma das mais belas poéticas da música brasileira, mas como ele mesmo dizia em “A Palo Seco” “E eu quero é que esse canto torto, Feito faca, corte a carne de vocês.” Outro fator que percebi - este de caráter especulativamente pessoal - foi a questão do sotaque nordestino estar sumindo da voz dos artistas mais midiáticos. Recentemente ao colocar um cd do Belchior percebi um riso instantâneo vindo de alguém que não conhecia Belchior. Perguntei o por quê do riso, já que se tratava de um tema triste e obtive a seguinte resposta: “Parece com o Falcão!” Então percebi que não se trata apenas de falta de informação musical, mas também de preconceito, pois sabemos que infelizmente o preconceito ao sotaque nordestino é constante e serve muitas vezes de paródia devido à fonética, no caso do Belchior isso é mais intenso , pois ele parece um “Bob Dylan do nordeste”. Fico feliz quando alguns compositores como Lenine e Otto deixam sua voz sair naturalmente, sem aquela preocupação com o “mercado”, pois revela consciência sobre a identidade e a importância que essa relega ao ser. Infelizmente, a mídia televisiva criou o simulacro do real sotaque brasileiro, que é aquele proferido nas telenovelas e nos telejornais. São Paulo e Rio de Janeiro representam o Brasil real, enquanto toda a beleza e vasta riqueza linguistica que compõe este gigantesco país são colocadas como meros exotismos ou preconceituosamente tachadas como algo estranho na uniformizada língua televisiva.

Sabemos que a mídia tem esse ritmo de engolimentos sucessivos em prol de sua manutenção mercadológica do que é colocado como contínuo “novo” e tem na descartabilidade o combustível perfeito para se construir esse real meticulosamente simulado. A música ou o que se supõe definir como música, é a linguagem artística que está mais presente na vida das pessoas, pois quase todos gostam de música, mas geralmente as que são mais apreciadas são aquelas presentes constantemente na mídia e aquelas de fácil assimilação sonora ou como é chamada “easy listening”. Um álbum de ótima produção, instrumentação de primeira e para completar, uma poesia cortante e rara na música brasileira não é o tipo de música que o comérci o quer em seu estoque, principalmente pelo teor existencial das letras. Alguns sons têm características especiais que os tornam, senão atemporais, pelo menos livres da datação imediata. Esse é o caso do poeta Belchior e seus quatro primeiros discos, em especial “Alucinação”, que traz um conjunto de canções irretocáveis que o tempo cuidou de torná-las ainda melhores.


Ninil




Belchior - Auto-retrato

Elis Regina - Como Nossos Pais

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Intolerância, Preconceito, Cegueira...

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Qual a diferença entre matar alguém apedrejado e querer que outro seja morto por afogamento?

A estudante de "Direito" Mayara Petruso disse em seu Twitter: "Nordestino não é gente. Faça um favor a SP: Mate um nordestino afogado."

É lemantável observar as palavras de um ser que se mensura geograficamente, daí podemos perceber que suas dimensões não vão além do espaço físico que a circunda, seu grau de relevância enquanto Ser não rompe a grandiloquencia vociferada pelas suas vestes, tão bem escolhidas como adorno à carcaça que se apodrece a cada dia, assim como todas outras. Mas não se deve ignorar a violência gigantesca que brota de suas palavras e as consequências decorrentes de tal brutalidade.




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Belchior - Conheço o Meu Lugar

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Mecânica

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Mecânica



Seria a lágrima

o combustível dos sonhos

vazando do tanque do peito,

entupindo as velas do pensar,

soluçando no escapamento da voz,

desabando pelos faróis da alma,

afogando o motor do coração?


Ninil



Man Ray - Tears 1930



Ron Carter solo -- willow weep for me

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pequena Miss Sunshine

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Pequena Miss Sunshine



A relevância de “Pequena Miss Sunshine” para a recente cinematografia é incontestável, tanto pela versatilidade dos diretores ( Jonathan Dayton e Valerie Faris) em transformar um tema comum em uma ótima história, quanto pela aparentemente descompromissada investigação de uma família americana, algo que acaba se transformando numa profunda análise de questões essenciais da vida moderna. O filme custou pouquíssimo para os padrões das produções americanas, mas conquistou até a horrenda academia de Hollywood, devido à magia que essa película possui.

O cinema independente americano ainda continua com fôlego para o bom cinema, aliás, o melhor cinema feito neste país onde tudo gira em torno de cifras gigantescas, mas que no fundo utiliza estes altos valores em prol dos blockbusters, onde efeitos especiais e histórias idiotas dão o tom ao mecanismo hollywoodiano, onde somente o retorno financeiro justifica a existência dos imensos estúdios. Talvez a diferença trazida por esse cinema independente, resida na simplicidade, ousadia e uma mentalidade que difere dos padrões estabelecidos. “Pequena Miss Sunshine” traz todos esses elementos, além disso, todo o filme é perpassado por uma poesia sutil e reconfortante.

Assistir a esse filme dentro da programação da TV, onde o teor qualitativo se aproxima mais do lixo do que de qualquer outra coisa, é caso raro, pois foi na TV aberta que o revi e foi num canal que prega veementemente todas as questões combatidas no filme.

O filme mostra a uma família de supostos desajustados, mas que aos poucos vamos encaixando as nossas vidas no mesmo nível. Os personagens são diferenciados entre si, mas em nenhum momento estereotipados. Sob o ponto de vista de uma mãe que tenta resolver todas as questões da família, existe o filho adolescente que não quer falar com mais ninguém; o marido que dá palestras sobre como vencer na vida, mas no fundo também é um perdedor; o avô que foi expulso do asilo por usar drogas; o irmão gay que tentou se matar e por último, a filha que está fora dos padrões estabelecidos de beleza e quer ser uma miss.

O filme começa mostrando um pouco de cada personagem, seu dia-a-dia e sobre a dificuldade que existe na comunicação entre eles. Os únicos que possuem uma comunicação realmente positiva é a garotinha e o avô, que está a ensaiando para o concurso de miss. O primeiro sinal de que as coisas começarão a ficar sérias, é quando surge o assunto sobre a tentativa de suicídio do irmão, a mãe não quer esconder isso da filha, o que deixa o pai furioso. Quando a menina fica sabendo que o tio quis se matar pelo amor de outro homem, ela dispara: “que ridículo!”, ao mesmo tempo que isso traz um alívio à família, mostra o quanto uma criança está ligada ao sentimento de viver.

A família segue numa velha Kombi para a participação da menina no concurso, a partir daí começa uma verdadeira invasão das mais variadas investigações sobre os valores humanos. O filme torna-se um road-movie divertido e poético. O problemas agora são expostos de modo mais breve e de acordo com a velocidade do veículo, parecendo até que a Kombi é a própria vida e os passageiros são os sentimentos e os elementos desse viver. A Kombi vai seguindo aos trancos e barrancos, apresentando um problema a cada quilômetro, mas seguindo firme, um organismo vivo na estrada.

Aos poucos vamos sabendo que o irmão suicida é o maior especialista em Proust nos Estados Unidos e perde seu namorado para outro especialista em Proust; o filho que queria ser piloto, não poderá ser mais, porque é daltônico; o avô acaba morrendo na estrada; o marido não consegue finalizar um importante negócio; a filha descobre que misses não podem saborear sorvetes da mesma maneira que ela.

O final do filme é um tanto revelador sobre as questões ocorridas na Kombi-vida: A quase indiferença à morte do avô, o individualismo com que cada um segue com seus problemas e a obsessão pelos padrões sociais que o mundo vai colocando e estreitando nossos caminhos. As crianças que participam do concurso parecem bonecos, de tanta artificialidade, nem parecem mais adultos como desejam seus pais, mas sim bonecos à mercê de uma sociedade mais trivial e artificial possível.

Muitos momentos do filme são memoráveis, mas dois são meus favoritos: Quando o tio conversa com o sobrinho que agora voltou a falar e também a “ouvir”, o tio lhe fala sobre a vida de Proust que era um doente quando a medicina tinha poucos recursos, era um homossexual quando isso era um grave crime e que escreveu um livro imenso que quase ninguém lerá, mas é tão grande quanto Shakespeare. Proust “viveu” todos os seus sofrimentos e não recusou nenhum, pois assim como as coisas boas, eles complementam o que chamamos de vida e que talvez sem eles, nunca teria escrito “Em Busca do Tempo Perdido”, uma das obras fundamentais da literatura. O outro momento é a apresentação da menina, que para mim é uma grande cusparada na cara dessa sociedade que transforma seres inocentes com seus sentimentos verdadeiros em meros objetos de contemplação e orgulho por estarem inseridos nos padrões que definem o que é o modelo social, considerado correto e normal, no qual estão excluídos aqueles cujas inquietações os fazem buscar outros caminhos e aqueles que não se submetem à ditadura da imagem em prol de uma vida dedicada “ao outro” no sentido de ausência de si como definidor de valores.

Um grande filme, que pela sua simplicidade, ás vezes não é tão levado a sério e acaba sendo visto como "uma comédia legal". "Pequena Miss Sunshine" foi feito para ser visto sem os "óculos" que usamos diariamente, mas com a obliquidade de um olhar questionador e sensível. Além de tudo isso, ele traz uma câmera que capta imagens belíssimas sob um clima poético muito especial e também tem uma trilha sonora linda, que desliza sobre a estrada junto com a nossa Kombi-vida.


Ninil





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domingo, 3 de outubro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A tão sonhada carta de um candidato ao eleitor.

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A tão sonhada carta de um candidato ao eleitor.



Serei tão breve quanto espero que seja o nosso relacionamento, pois mesmo tomando todas aquelas atitudes para nossa aproximação, a minha intenção em relação à você é somente uma. Sei que não tenho a mínima capacidade para tratar das questões referentes a esta empreitada, mas também nunca me interessei por isso, tampouco os outros são diferentes de mim. Acho que cada um deve cuidar de sua vida e de suas necessidades primordiais, tenho as minhas e dane-se o resto. Fui impulsionado a participar disso por motivos óbvios, mas pouco importa saber quais são eles, o que vale mesmo são as atitudes para que isso se concretize. Até que não me saí tão mal para um principiante, no início me senti um tanto constrangido e inseguro devido aquela invasão à sua vida na busca de intimidade e entendimento. Aos poucos fui percebendo que não existe tanta dificuldade em adentrar certos mundos que estão aos pedaços aguardando por alguém que venha juntá-los. Pois é, como você mesmo pateticamente disse, neste mundo é cada um por si. Concordo plenamente com esta afirmação, mas infelizmente neste momento preciso muito de sua ajuda, mas não confunda as coisas, se eu tomei cafezinho, apertei suas mãos sujas, sentei na sua cadeira velha e torta, falamos sobre sua vida e necessidades que não me interessavam nem um pouco, te abracei com um aperto calculado devido ao seu asqueroso suor e meu terno novo, ouvi de sua boca desdentada e fedorenta, toda uma coleção de misérias e lamúrias que não pedi para que falasse, tudo isso fazia parte do pacote. Aceitei toda essa tortura porque sabia que isso teria um retorno, mas gora você acha que sou seu amigo, quer estar sempre ao meu lado, quer saber as coisas que eu gosto... que merda! Não percebe que eu me esforço tanto pra passar o dia ao seu lado? Será que não imagina que, quando chega o final do dia, eu tenho que tomar um banho de duas horas para me livrar desse seu cheiro de cavalo suado, como disse um dia o general Figueiredo? Será que não percebe qual é a única utilidade que você tem para mim? É sempre a mesma coisa, depois de um determinado tempo, eu tenho que enfrentar todo esse tormento. Na verdade existem algumas compensações, aquela sua filha é bem gostosinha. Não é mesmo, seu idiota? Também ficarei um tempão sem ver a sua cara e isso já me dá um imenso alívio. Mas não se preocupe, pois daqui a três anos e meio, no dia da inauguração daquele pedaço de terra horroroso que vocês chamarão de praça, estarei lá para abraçar toda comunidade, para que nunca deixemos de ter esse elo de amizade. Talvez eu até mande arrumar aquele esgoto que passa em frente à sua casa. Ah, ia me esquecendo, estou enviando o número do meu celular, mas é para sua filha, somente à ela, pois tenho um serviço especial para sua lindinha. Não se esqueça meu caro, mal-cheiroso e invisível cidadão, amanhã você tem um dever cívico comigo e com o seu país, deixar de votar é um ato, no mínimo, de covardia e alienação. Por isso conto com você para mudar a minha vida. Tchau! Até daqui a três anos e meio.

* Espero que o outro conteúdo deste envelope seja suficiente para não se esquecer do meu número quando estiver em frente à urna.



Com carinho, seu...



Ninil



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domingo, 26 de setembro de 2010

Preto & Branco

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Foto:Imogen Cunninghan


Preto & Branco




A síntese da foto sublevava-se na cinza

luz que lambia cuidadosamente a folha,

gritando o verde ausente das retinas.

Redesenhando a tonalidade incorporada

na concretizada pigmentação do signo,

conduzindo a habituada leitura do olhar

fixada no óbvio registro visual da imagem,

indisposta condição de recepção servil

que não dialoga com os tons de cinza,

abarrotados das inumeráveis variações

multicoloridas da sinfonia do pensamento.


Ninil






 
Foto:Ninil
 
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Cores e Ritmo do Maracatu Rural - Lilia Tandaya


Edição de fotos e video do encontro e apresentação do tradicional Maracatu Cambinda Brasileira no Engenho Cumbe na região canavieira em Nazaré da Mata - Pernambuco - Brasil.


©Lilia Tandaya/ Profotos
http://www.profotos.com.br/


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Revelando São Paulo

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Revelando São Paulo


Numa época em que definir a identidade cultural de um povo é uma penosa busca dos grandes teóricos e pesquisadores que tentam decifrar a complexa teia social (pois a efemeridade como elemento de sustentação de uma sociedade, que se alimenta de sucessivas buscas referenciais, sustentadas por uma estrutura solidamente erguida sobre a real ordem social: O mercado de consumo, paradoxalmente elabora a identidade líquida que impossibilita a solidificação dos argumentos identitários, como observou Zygmunt Bauman) O Festival da Cultura Popular Paulista Tradicional, O Revelando São Paulo, traz um pouco daquilo que, mais do que uma tradição, é uma forma de resistência espontânea, libertária e poética do povo.

O Revelando são Paulo é um projeto que foi desenvolvido pelo grupo Abaçaí Organização social de cultura, que há quatorze anos, traz para São Paulo uma amostra da rica tradição cultural do interior paulista. Durante nove dias, são mostrados os mais variados sons, danças, culinária e artesanato do estado. Todo o entorno do parque da Vila Guilherme ficou com ares das festanças do interior, mas não nos deixemos enganar pela imagem bucólica da cena, muitos ali estavam com o olhar carregado de nostalgia, como se toda a indumentária e dança daquelas pessoas tivesse uma representatividade apenas exótica e arcaica, fazendo valer a provável modernidade através da foto de um celular.

Numa belíssima descrição da cultura popular no livro “A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento - O contexto de François Rabelais” de Mikhail Bakhtin, o autor afirma: “A multidão em júbilo que enche as ruas ou a praça pública não é uma multidão qualquer. É um todo popular ,exterior e contrária a todas as formas existentes de estrutura coerciva social, econômica e política, de alguma forma abolida enquanto durar a festa” e continua... “Essa organização é antes de mais nada, profundamente concreta e sensível. Até mesmo o ajuntamento, o contato físico dos corpos, que são providos de um certo sentido. O indivíduo se sente parte indissolúvel da coletividade, membro do grande corpo popular. Nesse todo, o corpo individual cessa, até um certo ponto, de ser ele mesmo:pode-se, por assim dizer, trocar mutuamente de corpo, renovar-se(por meio das fantasias e máscaras). Ao mesmo tempo, o povo sente a sua unidade e sua comunidade concretas, sensíveis, materiais e corporais.”( Pag.222)



A intenção não era fazer essa longa citação, mas Bakhtin descreve com tanta propriedade os elementos essenciais de interação do povo, que fica difícil conter a mostra de apenas algumas linhas do seu belo texto. Talvez não haja necessidade de dizer mais nada depois desta citação, mas é preciso dizer que a sensação de atemporalidade e contentamento diante de artistas verdadeiros(que não se sentem assim)que traduzem em danças e sons, um estado de identidade que permanece resistindo à lâmina do tempo ante ao grande engodo do rolo compressor da globalização que suprime importantes fatores sociais locais, por uma linguagem que se estabeleça como vínculo mercadológico em todos os sentidos, ou seja, o Neo-Colonialismo disfarçado de piedosa inclusão.


Sobre a questão musical que envolve todas estas manifestações, sinto-me incapaz de definir o amontoado de sensações que me sacudiam a cada grupo que se apresentava. A riqueza sonora é tamanha que, quando algum cantor surgia derramando seu estranho e belo canto, aquilo me remetia a lugares geograficamente longínquos como Índia ou Oriente Médio, um canto que trazia uma fonética africana com ritmos de cantos indígenas. Impossível definir antecipadamente o que poderia sair daquela voz, que contenta-se em viver no meio rural, uma voz carregada de toda ancestralidade que não se perdeu em necessidades contínuas de mudanças, que na verdade é apenas a renovação do guarda roupa identitário mercadológico imposto pelos simulacros.

Assim como outros cantos e sons de outras partes do planeta, o Brasil tem essa riqueza grandiosa que ainda sobrevive, devido ao esforço de pessoas que acreditam na beleza e importância da cultura popular tradicional, que empunhando seus tambores, rabecas, agogôs, alfaias...vão perpetuando a poderosa sonoridade do Maracatu, samba de roda, Coco, Congada, Jongo...e outros tantos belos sons que não tocam em rádio, que não fazem mais parte da vida das pessoas, mas estão aí, sobrevivendo com a mesma beleza e singularidade, que fazem da cultura popular um dos mais importantes gritos de resistência ao óbvio e ao efêmero.


Ninil




Fotos: Ninil

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Aula


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Aula



À Ana Maria Haddad Baptista



O tempo redescobria-se entre as palavras

dispostas em formato único de decifração

daquilo que não pede para ser medido,

mas submete-se à mediação do pensar,

concretizando-se em tocável verdade.

Lousa infinita sorvendo vivos instantes,

transportados de espectros atemporais

à melodia rabiscada e revivida em pó.

Passos transitam o léxico em suave dança

alcançando a memória no exato momento

que cumpre o bailado impreciso do ser,

guiando na precisão orquestrada do verbo,

o olhar diluindo-se no esparramar contínuo

dessa amplidão vestida de pensamento.


Ninil





Kandinsky time - Oleg Moiseyenko

terça-feira, 31 de agosto de 2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cegueira



Cegueira


A profusão de vozes se avolumando

na suposta uniformidade construída,

desconstruindo a escuridão absoluta,

transmutando-a em vastidão colorida.

Os passos flutuantes ousam subverter

o aconchego seguro do frio concreto,

bem instalado e acomodado na certeza

do convalescente ancoramento visual

inaugurando em estrutura sonora

o sentido racional estabelecendo a forma.

O deslizante caminhar sobre o nada

interroga a verdade absoluta do caminho,

esgueirando suavemente entre os corpos

que se desviam satisfeitos e apressados

no fluxo construído e amplificado

na unicidade programada do simulacro,

conduzindo o fio remendado dos dias,

concretizados na inevitável mudança

sugerida como dia seguinte pelo calendário.

A bengala lê suavemente o irregular alfabeto

que se desenha na esburacada calçada,

abrindo caminho entre os passos decorados

sufocados pelo inquestionável verbo ir

que ri da tresloucada caminhada feroz,

cujo olhos amplamente abertos ignoram

o concreto tecido de signos sob os pés.


Ninil





terça-feira, 24 de agosto de 2010

sábado, 24 de julho de 2010

A relevância do suporte material da mais vibrante abstração.


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A relevância do suporte material da mais vibrante abstração.


“Sem a música, nascermos já seria um erro”. Quando li essa frase de Nietzsche, fiquei um tanto aliviado, já que achava que tinha alguma doença relacionada a alguma obsessão que gerava a necessidade de ter algum som sempre soando aos ouvidos. Essa necessidade da música regendo meus movimentos, continua tendo a mesma intensidade e talvez tenha até aumentado um pouco, mas aquela voraz empreitada em precisar conhecer quase tudo, deu lugar à uma tranqüila pesquisa de aprofundamento na obra de alguns artistas que realmente fizeram e fazem a diferença, mas isso não quer dizer que eu conheça uma quantidade realmente relevante de artistas, na verdade não conheço nada de música e isso é que realmente me deixa feliz, porque sempre estarei inebriado por algo que ainda não conheço, assim como morrerei sem ter lido muitos livros que desejei ler, mas serei muito grato por todos aqueles que me trouxeram um pouco mais de luz ao espírito.

A semente viciante da música foi plantada em mim de maneira muito poética pela minha mãe com seus cantos e assobios enquanto lavava roupa, mesmo sendo as mais popularescas canções possíveis, hoje a memória afetiva as resgata com carinho gigantesco. Tenho que agradecer e me desculpar à minha família que me suportaram com as contínuas e renováveis tendências sonoras que invadiam a vida deles o tempo todo.

Meses atrás desisti da vã luta em ignorar os MPtantos da vida e acabei comprando um que suporta a absurda quantidade de quase cem CDs, mas para isso fui obrigado a investir em um fone de alta qualidade, mas mesmo assim, torço o nariz para a sonoridade “esmagada” que brota do minúsculo aparelho. Não sou saudosista nem fico glorificando quinquilharias vintage, mas no caso da música, sabe-se que os aparelhos de reprodução digital estão léguas distantes da qualidade do som analógico, isto provado cientificamente, não é à toa que o disco de vinil e o amplificador valvulado estão de volta, que na verdade nunca saíram de cena do mundo dos audiófilos.

Outra frase que me chacoalhou bastante foi: “Além do silêncio, o que mais se aproxima de exprimir o inexprimível, é a música” de Aldous Huxley. O homem sempre teve necessidade da música em sua vida. No ano passado foi descoberto o mais antigo instrumento musical, uma flauta feita de osso de algum pássaro, construída há trinta mil anos atrás e o mais impressionante é que ela já possuía uma escala de notas, pois então, mesmo antes de qualquer existência concreta de algum alfabeto o homem já sabia que essa linguagem e suas variações tonais já causavam prazer ao espírito.

A linguagem musical é puramente abstrata enquanto elemento que invoca as mais diferentes sensações e nuances no espírito, passando para o estado de arte quando estruturada em suporte escrito ou oral, sem necessariamente especificar o grau artístico que a comporta, isto é irrelevante já que cada um possui uma necessidade específica de variação artística, deixando de lado é claro, questões puramente comerciais que “facilitam” e empobrecem a audição. Aldous Huxley afirma que a música consegue se aproximar do silêncio e isto é uma constatação da sua poderosa interferência em nossa vida, assim como o silêncio.

 
Foto:Ninil


Silêncio, abstração, suporte e vida! Essas palavras surgem acima no texto e fazem parte a música, tanto em sua construção quanto propagação para todos os lados deste planeta. Ainda sou daqueles que vai à loja comprar aquele disco tão esperado. Nunca baixei música da internet, mas não vejo problema algum nisso, só que isso não vale para mim. Compro meus CDs e vinis em lojas que variam de acordo com o tipo de música que procuro, mas as lojas que procuro são sempre as mesmas, não por falta de opção, mas por questões que enaltecem o ato da compra de um objeto artístico. Não me vejo entrando na loja, pedindo o título e saindo como se estivesse ido ao mercado e comprado um quilo de carne. Moro em São Paulo há dezenove anos e uma dessas lojas que me abastece de música é a “Velvet” do André Fiori, localizada na República, sua loja é especializada em "pérolas" raramente achadas por aí, compro lá desde 1993. O simples ato de ir até uma loja e ser abastecido com o vasto conhecimento do André, sobre lançamentos, bandas novas e outras conversas paralelas, traz toda uma situação social de interação, diálogo, descobertas e o mais importante: o fator humano que envolve essa “troca”, que se perde na praticidade de uma compra virtual.

É nesse ponto que minha Ode toma forma, mesmo se construindo em prosa, ela tenta mostrar o valor que esse suporte material, que mesmo sendo apenas plástico e papel, pode trazer uma aproximação concreta entre as partes que não se tratam apenas como comerciante e consumidor, mas pessoas que percebem a importância do trabalho artístico que se encontra naquele invólucro, pessoas que ainda trocam um aperto de mão de dizem “até mais” e que ainda fazem “rodinha” para falar de seus discos preferidos. Zigmunt Bauman fala sobre a praticidade da virtualidade em facilitar o manejo do dia-a-dia ao distanciar os seres, trazendo assim, a descartabilidade tão própria da sociedade Pós-Moderna, pois é mais fácil descartar algo que “realmente” não faz parte de sua vida. Percebo que a virtualidade não é apenas uma obsessão, mas uma obrigação perante um mundo “evoluído”, no qual a aquisição de determinados itens obrigatórios é que lhe conferem o Status de cidadão.

Baudelaire(de novo!) era uma das mentes pensantes mais lúcidas de sua época e que só foi compreendido muito tempo depois, disse há 150 anos atrás: “Não há nada mais absurdo que o progresso, já que o homem, como é provado pelos fatos de todos os dias, é sempre igual e semelhante ao homem, isto é, sempre no estado selvagem.” Baudelaire já sabia, lá no princípio do capitalismo, que determinados mecanismos mercadológicos é que faziam as pessoas acreditarem que suas vidas só teriam sentido se comprassem determinados itens, hoje sabemos que existe todo um elaborado sistema de convenções sociais chamado Simulacro, que faz parecer que não conseguiremos viver sem tudo isso, mesmo que seja somente virtual.

Acredito que o suporte material de reprodução musical que conhecemos como o cd e o vinil desaparecerão e que a total virtualidade da música prosperará, já que a praticidade se tornou um dos itens obrigatórios do sujeito Pós-Moderno. Tomara que desenvolvam outra forma de reprodução que realmente traga uma qualidade sonora à altura do vinil, mas acredito que essa não será uma preocupação dos cientistas, já que, da mesma forma como aconteceu com o cd, não existe uma preocupação com a qualidade do som, mas sim com a praticidade e quantidade em que a música será reproduzida.

A oralidade era um dos elementos primordiais na preservação de questões essenciais nas culturas antigas, pois o analfabetismo era regra e apenas a elite ou a aristocracia é que tinham algum acesso à escrita. Alguns povos que tinham uma ligação mais intensa com a música, como os africanos e indianos, extrapolaram a noção de oralidade e fizeram dela um elemento de resistência cultural e social. Vimos isso na última Copa do Mundo, quando a seleção da África do Sul entrou em campo com uma dança tribal emocionante, que remete à ancestralidade daquele povo. Quando isso foi visto num esporte globalizado e midiático como o futebol? Africanos e indianos ainda tocam as músicas de seus ancestrais, assim como histórias e lendas são transmitidades por gerações, devido a importância que tem a oralidade em sua cultura, pois como disse o escritor nascido em Mali, Amadou Hampaté Bâ: "na África, quando um ancião morre, uma biblioteca inteira é consumida pelas chamas".

A virtualidade me parece justamente o contrário dessa resistência cultural, pois não se tem uma memória material porque não se dá importância a essa questão, pois não é mais relevante esse “acúmulo material”, mas também não é necessário “guardar em si”, já que está tudo virtualmente armazenado. Talvez muitos elementos culturais brasileiros transportados artisticamente para a música, nunca tivessem sido conhecidos, não fosse o trabalho de alguns pesquisadores, principalmente Mário de Andrade, que registrou inúmeras manifestações que aos poucos foram sufocadas por uma sociedade sem memória, assim com esta que acha que tem o conhecimento guardado na virtualidade, mas na verdade é conduzido por ela.

Ninil

P.s: Isso não é válido para os blogues! (rsrsrs)




Foto:Ninil